
Há muitos anos, acho que ainda na minha adolescência, assisti a uma entrevista de Chico Anísio que marcaria minha trajetória profissional. Se alguém, nestes tempos midiáticos e voláteis – não necessariamente nessa ordem – já esqueceu quem é Chico Anísio, anota aí: é ator (desde os anos 50, nas Chanchadas), diretor, produtor, escritor, roteirista, um dos mestres da televisão brasileira, criador de mais de 200 personagens, um dos responsáveis pela linguagem da nossa “telinha”, em especial, do humor. Sem falar na trajetória no rádio, no teatro...
Bem, na dita entrevista, Chico Anísio disse, com a maior naturalidade do mundo, que concebia seus textos e suas piadas como os chineses: de trás para frente. Eu ainda não trabalhava com audiovisual, acho que nem pensava nisso, por isso não entendi como seria possível tal escrita, aqui em nosso mundo ocidental. Como sentar diante da página em branco e escrever uma história começando pelo fim?
Como dizia o velho jingle, “o tempo passa, o tempo voa...”, e me vejo roteirizando e dirigindo documentários e comerciais de TV. E dando cursos sobre isso. Quando comecei a esboçar minhas primeiras aulas, a pesquisar sobre o assunto, qual não foi a minha surpresa ao me deparar de novo com a grande dica de Chico Anísio. Dessa vez, organizada em manuais, como os de Doc Comparato e Syd Field, dois grandes estudiosos e organizadores de métodos que nos ajudam a compreender os meandros da narrativa audiovisual. Ambos, cada um a seu modo, afirmam que antes de escrever a primeira linha de um roteiro, seja qual for o formato, devemos ter em mente o final da história, pelo menos um esboço.
Claro! Ninguém entra em um carro e, depois de percorrer cinco ou dez quilômetros, começa a pensar para aonde está indo. Quando isso acontece o motorista já se perdeu. O mesmo ocorre quando estamos frente a frente com a angustiante página em branco, cheios de idéias e sentimentos que dariam “um roteiro fantástico!”. Se começarmos a escrever sem rumo, sem saber para aonde vai a história, dificilmente completaremos o trajeto, a narrativa poderá se perder. É bem mais fácil definir primeiro qual o destino da nossa história e, depois disso, construir a “estrada” até ele. Do contrário, corremos o risco de pegarmos qualquer caminho, pois, sempre surgem muitos, que nos levarão a... lugar nenhum.
Portanto, muita atenção na hora de escrever o seu roteiro, porque, como dizia um dos personagens de Chico Anísio, o prefeito Walfrido Canavieira: “Palavras são palavras, nada mais que palavras”.